Viagem ao Camboja

Publicado em 31 de julho de 2012

A Mostra Sesc de Artes encerrou domingo com o excelente show do Dengue Fever, dos irmãos Ethan e Zac Holtzman e a bela vocalista cambojana Chhom Nimol. A banda faz um psyco-rock dançante, diretamente ligado com os anos 60 e 70, quando o encontro com a cultura ocidental (graças à guerra com o Vietnã) fez florecer no Camboja um rock’n roll apimentado com os vocais típicos daquela parte da ásia.

O Dengue Fever já tem 10 anos de estrada e 5 álbuns gravados, mas conserva um ‘que’ de banda iniciante, muito pela timidez de Nimol, que não nega seu passado de cantora de karaokê. E isso não é nenhum demérito, veja bem: o Camboja tem uma tradição musical de cantores amadores, e não raro é possível encontrar verdadeiras virtuoses acompanhadas de um tecladinho midi. É o caso de Nimol: num trinado de ave-rara, a moça alcança belos tons agudos, levando a plateia a uma viagem instantânea para a Ásia. A banda que a acompanha compensa o gestual contido da moça: o baixista Senon Williams não poupa reboladas e explora o palco todo, muitas vezes acompanhado pelo enfurecido saxofonista David Ralicke.

O show começou com as canções mais tradicionais, cantadas em Khmel, a língua falada no Camboja, e foi se acidificando gradativamente. Pouco a pouco o rock entrou com mais peso, e logo o guitarrista Zac já estava fazendo duetos em inglês com Nimol, um pouco mais solta com o microfone em punho.

Acompanhando os dois, lá no fundo do palco está Ethan, o criador da banda. Totalmente tímido, ele toca o teclado que dá o molho especial para a mistura cambojana, e acompanha as canções cantarolando, embora não tenha microfone. Foi ele quem primeiro se encantou com a música asiática, durante uma viagem nos anos 90. Ele relembra a história: “Eu não imaginava que isso ia acontecer quando fui viajar. Foi uma surpresa pra mim. Eu estava na Ásia e fui comprando alguns instrumentos, no Vietnã, no Camboja… encontrei umas fitas k7 de música cambojana e trouxe para os Estados Unidos. O Zac tinha se mudado de São Francisco para L.A., e juntos fizemos uma coletênea com as fitas, chamada “Eletric Camboja”. A coisa foi ficando maior pra gente à medida que fomos conhecendo mais sobre a música Cambojana, sobre a história do Camboja, e sobre o que aconteceu com os músicos de lá. O momento de virada foi quando a banda toda viajou pra o Camboja. Nós éramos os primeiros ocidentais a voltar lá e tocar aquelas canções, desde que o Khmer Rouge (regime comunista que governou o país nos anos 70) proibiu essas canções e assassinou os músicos que as compuseram.”

A viagem continua no palco, com ares de trilha sonora de filme de detetive vintage. Em “A Gogo”, o público perde a timidez e cede aos apelos de Nimol, abandonando as cadeiras do auditório. No palco baixo do novíssimo Sesc Bom Retiro, o show vira uma festa democrática com o público dançando praticamente junto com a banda. O auge da apresentação é sem dúvida o hit “One Thousand Tears of a Tarantula”, que entrou na trilha sonora do seriado Weeds. Infelizmente, é a última música do setlist, e restam apenas as duas músicas do bis para a galera se acabar dançando.

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