Thee Butcher’s Orchestra: os açougueiros contra a frescura e o hype

Publicado em 17 de maio de 2012



Por Zé Roberto Pereira. Foto: Adriano Cintra e Marco Butcher por Ivana Debértolis.

Talvez algum dia tenhamos que ensinar a toda uma geração que o termo “garage rock” não é apenas a descrição de um estilo musical, mas a expressão literal do local onde um determinado tipo de música se formava. Na São Paulo de 1996, foi na garagem de Marco Butcher que Adriano Cintra e ele gravaram sua primeira demo, depois de um encontro provocado pelo gosto comum pelo som cru e barulhento dos americanos da Pussy Galore. “Não acredito que você também gosta disso”, Adriano se lembra de Marco ter dito – naqueles tempos pré-internet, encontrar quem conhecesse e gostasse das mesmas bandas obscuras que você era quase um encontro de almas.

A influência da banda de Jon Spencer é nítida no som do Thee Butcher’s Orchestra – e é o que a diferencia de outras bandas garage brazucas, como Os Skywalkers. O Butcher’s era mais sujo, mais pesado e, por isso tudo, mais moderno. E tinha a cara de São Paulo, uma cidade cinza, barulhenta, perigosa – mas divertida. “É uma banda de bar. Uma banda pra ir embora quando o sol estiver raiando e de ressaca.”, diz Adriano Cintra, um dos fundadores do Butcher’s, ex-CSS, atual Madrid e infinitos outros projetos. O hiperativo e hipercriativo Adriano (“É porque sou geminiano”, brinca) diz que sente falta daquele clima de despretensão dos anos 90: “Os inferninhos meio que sumiram, né? Nos anos 90 era qualquer negócio, tinha um chão com uma tomada, vc levava suas coisas, plugava e tocava. Eu sinto falta disso. Acho que perdeu muito. Teve uma frescurização das coisas.”

Não quero ser grande

“É rock, liga as coisas e pronto”, diz Adriano, quando conta como foram o final dos anos 90 e começo dos anos 2000 para o Butchers. Além de produzir sete discos em sete anos, de “Super Derby Recreation”, de 97, a “Stop Talking About Music”, de 2004, a banda fez incontáveis shows durante o período. Eram de três a quatro por semana, na capital, interior e outras cidades do Brasil. Eles chegaram a excursionar pela Argentina e pela Europa durante 40 dias, mas o sucesso internacional nunca foi uma meta. “Tocamos em cidades absurdas da Alemanha, tocamos na Eslovênia, em uns picos muito de garagem, porque a gente sempre teve essa coisa de ser mais underground. A gente nunca quis ser mainstream, sabe. Sempre quis ser mais uma coisa de bar, mesmo. De quem gosta de sair à noite, beber, ficar bêbado e ver um show legal. É muito mais isso do que tocar na festa do Fashion Week ou em grandes festivais. Não era a nossa ir lá e virar o The Hives, ir lá e tocar no VMA. A gente gostava do Oblivians, banda que os integrantes moram até hoje em Detroit e têm emprego.”

O ideal de turnê do trio não era hotéis cinco estrelas e camarins com champagne, mas sim diversão enlouquecida: “Teve essa turnê que a gente fez com Os Pedrero, uma banda punk do Espírito Santo, e o Motosierra, do Uruguai… mano, a gente entrava numa van, tocava, sei lá, no Rio, aí saindo do show entrava todo mundo na van, sujo, e ia até o Espírito Santo. Chegava lá todo mundo de ressaca, ia pro lugar do show, ninguém tinha dormido direito. Era assim, dez nego fedido dentro de uma van, sei lá, dez dias… mas era muito divertido.”

Encontros, desencontros e a cena garage rock

A banda nunca deu dinheiro para o sustento dos seus integrantes, mas sempre foi encarada com paixão. O problema, é claro, é que em muitos momentos perdeu espaço para outros projetos: Marco e Adriano moraram foram do país, o último a bordo do furacão CSS, que virou menina-dos-olhos do mundo hype nos anos 2000 e do qual acabou de se desligar.

Apesar das longas pausas, o Butchers nunca chegou a terminar, e o reencontro neste ano foi mais fácil do que eles imaginavam: “Foi muito legal, porque a gente não tocava junto fazia uns dois anos. Aí a gente falou: ‘vamos reestreiar?’. A gente foi pro ensaio, tocou todas as músicas, saiu tudo de primeira. Igual andar de bicicleta, não esquece.” Isso anima a compor coisas novas? “Tem quatro músicas que a gente gravou em 2008, que são inéditas e precisamos finalizar. Fazer música com o Marco é muito fácil, a gente começa a tocar, ele começa a cantar umas coisas por cima, o Jonas faz as viradas e quando a gente vê já tem uma música pronta.” Sacou o lance do encontro de almas?

Nunca houve no Brasil propriamente uma cena garage rock: “A gente tocava muito com as bandas punk, era engraçado. Mas tocamos também muito com o Forgotten Boys e o Autoramas…” E hoje, existe uma cena? “Tem o Human Trash, que toca com a gente no Joia na sexta. Tem o pessoal do projeto Caffeine Studio Sound Studio. Lá fora tinha essa banda chamada Mika Miko. Era a última banda fodona que eu olhava e falava: puta, essa banda é legal pra caralho. Tem um disco que chama “We Be Xuxa”, porque uma das minas viu a Xuxa uma vez na TV e pirou. E tem uma banda que chama Hunx and His Punx, que é tipo foda. O cara é tipo um Richard Hell gay, e montou uma banda só de mina gordinha e é tipo um rock zoado, bagaceira, muito foda.”

Back to basics

A intermitente história do Butcher’s Orchestra tem um acompanhamento incidental curioso: apesar das pausas, da aversão ao sucesso, do som tosco e muitas vezes mal produzido (“Nossos discos eram produzidos em um fim-de-semana”), a banda cultivou ao longo dos anos uma legião de fãs fiéis, que acompanham o trio aonde quer que ele vá. “Engraçado que eu não tenho essa noção. A gente tocou umas semanas atrás na Casa do Mancha, e era um domingo, tava chovendo, frio pra caralho, eu falei, mano, não vai vir ninguém. No lugar cabe, sei lá, 150 pessoas e tinha umas 200. Depois a gente tocou no Sesc Belenzinho e eu pensei: ninguém vai vir aqui… e as pessoas sabiam cantar as músicas, e as músicas mal tem letra (risos)… bizarro.”

A empatia visceral que os açougueiros despertam não pode ser explicada por um único fator. “Eu acho que porque é uma banda de verdade. A gente sempre gostou muito de tocar, as músicas são divertidas, a gente deu muito certo compondo juntos. E os shows sempre foram muito legais, sempre muito barulhentos, muito rápidos. As pessoas gostam, acho que sei lá, elas se identificam.”

Outro fator que contribui para para o culto ao Butcher’s é uma certa nostalgia desse tempo do rock n´roll mais direto e reto do qual a banda faz parte. Mais cru, preto no branco, mais música e menos hype: “Eu acho que os anos 90 vão voltar a qualquer momento. As pessoas estão chegando nuns 35, 40 anos e todo mundo começa a olhar pra trás pra tentar saber de onde veio. Sei lá, teve show do Pin-ups na Virada Cultural, foi muito legal. A gente tá num momento de dar uma olhada a… quantos anos atrás? Quinze anos atrás? Pra ver o que tava acontecendo, pra depois olhar pra frente de novo.”

Olhar pra trás, voltar ao básico, desconstruir os excessos para reencontrar a essência da música. E da vida, afinal. Let’s go back to our future.

SERVIÇO

The Butcher’s Orchestra no Cine Joia
Abertura com Human Trash
Sexta-feira, 18 de maio
Horário de abertura da casa: 21h
Horário previsto do show de abertura – 22h
Horário previsto do show principal – 0h
Ingressos: R$ 15,00 a R$ 40,00

Discografia Thee Butcher’s Orchestra

Stop Talkin’ About Music (2004)
What about now (2004)
B-Sides Series Vol.1 (2003)
In Glorious Rock n’ Roll (2002)
Golden Hits by… (2001)
Deluxe 2000 (1999)
Super Derby Recreation (1997)

O Thee Butcher’s Orchestra é:

Adriano Cintra (guitarra)
Marco Butcher (voz e guitarra)
Jonas Morbach (bateria)

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