Memórias, rouquidão e uísque

Publicado em 16 de maio de 2012


Por Eduardo Cuducos*

“Três doses de uísque doze anos no mesmo copo, sem gelo”. Foi dizendo essa frase que comecei a ouvir os primeiros acordes do show do Bob Dylan, o segundo dele aqui em São Paulo em 2012. Cheguei atrasado, já que os trens da CPTM estavam desativados na Marginal Pinheiros e os usuários só eram avisados na integração do metrô amarelo com a linha. De lá, fui de ônibus dividindo espaço com muitos corinthianos que amarguravam a desclassificação no Paulistão 2012 naquela mesma tarde.

Peguei meu meio copo de uísque corri para o meu lugar no show. Eu já tinha escutado essa primeira canção inúmeras vezes — devia ser de um dos discos da década de 60 ou 70, a fase dele que mais gosto, pensei. Não lembrei no dia, mas era a música que antecede ‘Just Like a Woman’ no famoso álbum Blonde on Blonde de 1966.

A voz rouca soava cansada. Cansada não para parar, nem para sentar, muito menos para se calar. Estava cansada e forte. Tão cansada que fazia o cantor reinventar as canções de quando tinha seus 20 ou 30 anos, mas tão forte que fazia das velhas canções provocações penetrantes e tingidas de azul… azul de blues, claro.

Dei um primeiro gole e afastei um pouco meu chapéu para secar o suor da testa, feliz de ainda poder ver (e não só escutar) boa parte da primeira música. Aquela batida folk cantada com rouquidão e com um ar desdém eu já havia ouvido ao vivo em 2008, e eu sabia o quanto ela iria me fazer imergir em memórias e sensações. Assim como em 2008, a firmeza e a certeza da voz de Bob Dylan contrastava com a incerteza do mundo lido por suas letras — e assim eu ia relendo, mais uma vez, minha própria vida naqueles versos todos.

A gaita chegou, minutos depois, ensurdecendo a plateia para toda e qualquer outra coisa que não fosse a música tocada pela banda naquele palco azul, cantada pelo poeta rouco. Logo no começo veio ‘Things Have Changed’, música das mais icônicas da carreira de Bob Dylan. Em 2000 ela foi indicada para o Oscar, junto com outras sensacionais, como ‘I’ve Seen it All’, da Björk, ou ‘My Funny Friend and Me’, do Sting. A islandesa compareceu à cerimônia com um vestido quase tão polêmico quanto o filme que fizera com Lars von Trier. O ex-vocalista do The Police compareceu com uma apresentação impecável. Bob Dylan não deu as caras na festa, cantou de um telão, do outro lado do mundo — e levou a estatueta.

Esse tom de descaro errante, típico de folk e do beat que Bob Dylan deixa transparecer, teve seu auge quando veio ‘Tangled Up in Blue’, música que abre o que eu considero seu melhor álbum (Blood on the Tracks, de 1975). Mais adiante, as incertezas e interrogações de ‘Simple Twist of Fate’ me fizeram sentir velho. Cada uma daquelas músicas que eu acabara de ouvir me marcaram muito, mas eu começava, só então, a perceber o que elas evocavam no meu íntimo no show de 2008, e o que elas estavam evocando agora. Me senti olhando minhas próprias rugas e lembrando das preocupações e das conquistas que as fizeram crescer, percebendo que as enormes lacunas do mundo fazem vitórias e derrotas serem celebradas com um tom tão triste quanto sábio.

Minhas emoções iam se entrelaçando com as músicas. O fim foi chegando com uma delícia atrás da outra: ‘Highway 61 revisited’, ‘Like a Rolling Stone’, ‘Ballad of a Thin Man’, ‘All Along the Watchtower’… me sentia Brás Cubas nas vertigens que abrem sua biografia. Me lembrava até das músicas não tocadas e de como elas me tocavam — foi o caso da romântica não-tocada ‘Spirit on the Water’, puxada na minha memória pela execução de ‘Thunder on the Mountain’ no show (afinal, uma segue a outra no ‘Modern Times’, álbum de 2006).

Meu uísque já havia acabado há um tempo e eu nem ligara, mas me doeu a hora de voltar a ter os dois pés no chão: com um ar de descaso a banda e o poeta se despedem, simplesmente somem, e eu sabia que era hora de encaixar as peças íntimas que a voz rouca bagunçou, sem desespero, afinal, a resposta, meu amigo, está soprando ao vento…

*Eduardo Cuducos é sociólogo, líder de projetos na Insitum e faz auto-terapia escrevendo poemas e escutando belas letras.

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