Dois branquelos e um bebê no Lollapalooza Chicago

Publicado em 4 de abril de 2012

Nosso colaborador Vitor Dornelles esteve no Lollapalooza em Chicago no ano passado com sua esposa (grávida) Regina. Hoje o casal já está com a pequena Penelope no colo e conta pra gente com mil detalhes saborosos como foi a aventura. Garantimos boas risadas com história deles:

PRÓLOGO
Quando dizíamos que nossas férias seriam em Chicago, a reação mais comum era receber de volta uma cara de perplexidade seguida da pergunta: “Mas o que tem pra fazer lá?”. Como mais tarde ficou provado, muita coisa. Contudo, nossa resposta padrão era: “Tem o Lollapalooza, oras!”. De fato, o principal objetivo da nossa viagem era a edição de 2011 do festival – a 20ª da história –, realizado em agosto durantes três dias, no Grant Park, bem no coração da cidade americana.

Cinco meses antes do festival compramos nossos ingressos no dia em que começaram as vendas pela internet, com o preço promocional de US$185. Sem filas, sem taxa de conveniência e com possibilidade de imprimir os ingressos em casa. Agora só faltavam os vistos e, claro, descobrir quais bandas tocariam efetivamente (não tem jeito: quem quer ingresso mais barato tem que dar tiro no escuro).

BANDAS POR TODOS OS LADOS
Divulgaram o line-up menos de um mês depois e, confesso, não pude esconder certa frustração. Os headliners não eram os mais empolgantes do mundo e havia poucas bandas que eu fazia questão de ver, além de muitas que eu sequer conhecia. No entanto, os ingressos e as passagens já estavam comprados, então decidi que iria aproveitar o festival da melhor maneira possível. Resolvi conhecer as bandas de que nunca tinha ouvido falar, além de ouvir mais as que eu só conhecia superficialmente. Foi assim que fui apresentado ao fantástico soul do Fitz and the Tantrums, por exemplo, e ao blues rock do Little Hurricane. Óbvio que não consegui conhecer todos os artistas, o que me levou a perder shows sensacionais. Mas em um festival deste tamanho não tem jeito: você vai se arrepender de algumas escolhas e vai ter que conviver com isso.

UM PROBLEMA MINÚSCULO
Em meados de julho, quando já estávamos com quase tudo pronto para a viagem, fomos surpreendidos por uma notícia: minha esposa estava grávida. Embora tenhamos ficado felizes, íamos ter que mudar alguns dos nossos planos para o Lollapalooza. A ideia de correr de um palco para o outro teria que ser abandonada, bem como a pretensão de ficar na fila do gargarejo em alguns shows. Além disso, como depois iríamos descobrir, passaríamos muito mais tempo sentados do que imaginávamos. Deste modo, agora éramos um trio a embarcar para Chicago – ou uma “dupla e meia”, se levarmos em conta o tamanho diminuto do novo membro da família na ocasião.


O festival fica no Grant Park, meio de Chicago

5 DE AGOSTO DE 2011 – RECONHECENDO O TERRENO
Estávamos hospedados bem perto do centro, o que facilitou bastante o nosso deslocamento até o Lolla, pois percorremos apenas algumas estações em uma única linha de metrô. Não que fizesse muita diferença se estivéssemos mais longe, considerando o sistema de transporte espetacular de Chicago, em que todas as linhas levam ao Grant Park.

Chegamos às 13h30 para pegar o comecinho do The Naked and Famous. Os neozelandeses fizeram um show simpático, mas que não me empolgou. Talvez tenha sido porque eu ainda estava assimilando o entorno, e não consegui prestar muita atenção. Foi uma apresentação bem curta, como é regra em festivais, mas que foi o suficiente para abarcar o repertório da banda. O momento mais interessante surgiu quando tocaram o hit “Young Blood”, e o resto definitivamente sumiu no limbo da minha memória.

Como estávamos no modo “ir com calma por causa da gravidez” e não havia tanta coisa que eu fizesse questão de assistir neste primeiro dia, aproveitamos para explorar melhor o ambiente. Nossa primeira providência foi conhecer as opções de comida. Acostumados com as limitações dos festivais brasileiros, nos surpreendemos com a variedade de comida disponível. Tanto que não repetimos um único prato durante os 3 dias de festival. A curadoria gastronômica do chefe Graham Elliot era, de fato, muito bem sucedida.

Percorrendo as barraquinhas de Chow Town (a rua que concentrava as opções de comida), ou explorando a Green Street (para a galera “orgânica”), ficava evidente que o Lollapalooza não era um simples festival de música. Era mesmo uma “experiência”. Imaginava ser possível ficar ali o dia inteiro sem ver um show sequer e ainda assim se divertir. Porém, nosso principal objetivo ainda era ver as bandas e, tão logo engolimos os últimos pedaços dos nossos italian beef sandwiches, partimos em direção à apresentação do Smith Westerns no palco Playstation.


Le Butcherettes: sangue cenográfico, histeria e pouca música

Contudo – e festival tem muito dessas coisas –, no caminho avistamos um palco escondido no meio das árvores, num lugar muito agradável e com pouca gente. Era o Google+, que acabaria se tornando nosso palco favorito. Decidimos dar uma espiada. Estava começando o show do Le Butcherettes, que como eu já tinha ouvido falar, costumavam ser insanos, com direito a sangue cenográfico e tudo. Achei que seria pitoresco e acabamos ficando. Foi aí que surgiu nosso primeiro “arrependimento de Lolla”. A apresentação foi muito ruim: confusa, repertório fraco e com total desinteresse da plateia. Acredito que ficamos ali por pura inércia, ou talvez porque o que acontecia no palco era realmente bizarro: uma garota de avental sujo de sangue, empunhando sua guitarra e tendo ataques semi-epilépticos no palco, que de vez em quando gritava alguma coisa no microfone. Um lixo.


Cooling bus, para quem curte um ar condicionado

Em compensação, porém, logo depois fomos apresentados a uma das melhores ideias que eu já vi em prática num festival. Bem ao lado do Google+ havia alguns ônibus estacionados, cedidos pela CTA (Chicago Transit Authority), com o ar-condicionado ligado. Eram os incríveis cooling buses! Embora Chicago seja famosa pelos invernos rigorosos, a cidade também tem verões de respeito, e aquele início de tarde estava especialmente quente, ainda mais para um casal de branquelos “grávido”. Não titubeamos e fomos relaxar dentro de um dos ônibus refrescantes. Foi uma das melhores ideias do dia, e que serviu para que nos recarregássemos para a próxima apresentação: Cults, no próprio Google+.


Madeline Follin estava nervosa mas isso não prejudicou a apresentação do Cults

Os cabeludos Madeline Follin e Brian Oblivion subiram ao palco ladeados por uma banda de apoio igualmente cabeluda, para um show baseado em seu único e excelente disco, “Cults”. Tocaram tudo que podiam, incluindo as ótimas “Go Outside”, Abducted” e “Bumper”. Ao vivo o som da dupla é bem mais cru do que o super-produzido álbum, o que curiosamente deixou as canções ainda mais interessantes. O aparente nervosismo de Madeline Follin não atrapalhou a performance e saímos bastante satisfeitos.

Depois, fomos assistir ao The Mountain Goats no palco Playstation. Perdemos o comecinho e assistimos a tudo sentados no chão, já que o palco ficava num pequeno declive. Foi uma apresentação simpática, embora nada memorável. Logo estávamos voltando para o Google+ para assistir ao OK Go!, não sem antes dar uma espiada na Green Street, onde vendia-se desde queijo coalho (!) até shots de grama líquida (!!).

O show do OK Go! foi o primeiro a lotar o Google+, tanto que não conseguimos ficar num bom lugar. Mesmo assim, ainda que assistindo por entre as árvores, deu para aproveitar bastante o espetáculo visual da banda, com seus blazers coloridos e músicas bacaninhas, além de múltiplos instrumentos, que incluíram sinos e até mesmo taças de cristal cheias de água. Apesar de divertido, decidimos não esperar o fim do show, pois queríamos ver o Muse desde o começo – única banda do dia que aguardávamos com mais ansiedade, embora já tivéssemos visto um show no Rio. E lá fomos nós para o lado sul do Grant Park, ver a nossa primeira apresentação no Music Unlimited (ao mesmo tempo apresentavam-se o também headliner Coldplay, ao norte, e os sub-healidners Ratatat e Girl Talk, em outros palcos).


Muse: lasers, projeções e fogos de artifício

Embora tenhamos ficado a muitos e muitos metros do palco, o som era absolutamente impecável. A experiência contrastava enormemente com o show do Muse a que assistíramos anos antes no Vivo Rio, com seu sistema de som catastrófico. Era como se estivéssemos nas primeiras fileiras, ouvindo com clareza todos os instrumentos de Matthew Bellamy e cia. Passeando pelos seus vários hits, ficava evidente que os shows do Muse foram feitos para grandes arenas, e não para locais menores como o da casa de shows do Rio de Janeiro. Ali, com espaço de sobra, eles podiam dar vazão a todo seu estoque de raios lasers, projeções e fogos de artifício (teve mesmo fogos de artifício!). Era o final perfeito para o primeiro dia. Um show digno de headliner.

6 DE AGOSTO DE 2011 – CATARSE E ARREPENDIMENTOS
O sábado amanheceu nublado, e acordamos dispostos a chegar cedo ao Grant Park. Porém, acabamos nos enrolando e só conseguimos chegar por volta de 13h30, quando o Phantogram já estava tocando no Playstation stage. Não ficamos para ouvi-los, pois queríamos garantir um bom lugar para o show que começaria dali a uma hora, o único que eu realmente fazia questão de ver de perto: Fitz and the Tantrums.
Não chegamos a encostar na grade do palco – para evitar um torcicolo –, mas ficamos suficientemente bem posicionados. Algumas gotas de chuva se insinuavam sobre nós, mas antes que pudéssemos ficar incomodados com o tempo ruim, Michael Fitzpatrick, Noelle Scaggs e sua gangue subiram ao palco para dar início ao melhor show a que assistimos em todo o festival.


Fitz and the Tantrums, preste atenção nesses caras

Fitz and the Tantrums são uma banda moderna de soul, que faz um som dançante com letras inspiradas que falam de rancor e rompimentos amorosos. Tudo isso sem uma única guitarra na sua formação. Michael Fitzpatrick é um dos vocalistas mais empolgados da música atual e sabe entreter uma plateia como ninguém. Noelle Scaggs, a sensacional backing vocal, é mais discreta, mas também tem uma animação contagiante. A apresentação foi toda centrada no primeiro e até agora único disco da banda, “Pickin’ Up the Pieces”, uma das melhores estreias que ouvi nos últimos tempos (e, se você ainda não conhece, sugiro que pare de ler este texto agora e vá ouvir já. De nada).

Tocaram praticamente tudo: “Breakin’ the Chains of Love”, “News 4 U”, “Don’t Gotta Work It Out”, entre outras, passando até por dois covers: “Steady as She Goes” do Raconteurs e “Sweet Dreams” do Eurythmics. Mas o ponto alto foi, sem dúvida, o final, com o hit “Moneygrabber”. Quase no final da música, Fitzpatrick convidou o público – que não era pouco, apesar do horário – a se agachar. Por incrível que pareça, foi atendido pela maioria – inclusive alguns fãs do Eminem, que desde aquele horário já guardavam seus lugares na frente do palco – e, depois de dar um sinal, fez toda a plateia pular junto para cantar o refrão. Não sei se a catarse coletiva teve alguma influência, mas ao fim do show já não havia mais nuvens carregadas no céu.


Kidzapalooza, garantindo a educação dos nossos futuros rebentos

Tínhamos ainda alguns minutos antes do Death From Above 1979 do outro lado do parque, então resolvemos dar um passeio. Primeiro demos uma espiada na primeira música da apresentação do nosso velho conhecido Mayer Hawthorne, que começava no palco oposto. Depois fomos caminhando em direção ao Kidzapalooza, a área de shows voltados para crianças, que contava ainda com atividades recreativas diversas. Talvez tenha sido efeito da gravidez recém-descoberta da minha esposa, mas ficamos encantados com aquilo. Pais e filhos – incluindo aí alguns bebês de colo – dançavam e brincavam num tabladinho, enquanto, no pequeno palco, Ralph’s World tocava “Happy Lemons”, uma espécie de ode à limonada. Estávamos cada vez mais impressionados com essa vertente “família” do Lolla, algo que eu nunca vi em nenhum festival brasileiro. Decidimos que, um dia, voltaríamos ali com a nossa filha.

Ficamos tão distraídos com o paraíso da criançada que chegamos um pouco atrasados ao show do Death From Above 1979. O som deles é poderoso e casa muito bem com uma apresentação ao vivo. Porém, como estávamos bem longe para evitar mosh e congêneres, não deu para aproveitar tanto. Era o tipo de show que você tem que pular e suar, o que não era permitido na nossa situação. De todo modo, tivemos que sair antes do fim, pois queríamos ver The Drums.


The Drums, o maior Fail do festival

Ah, The Drums. Eles tinham tudo para fazer um dos melhores shows do festival. O palco era perfeito para o tamanho da banda, o repertório era bacana, o público estava receptivo. No entanto, foi um desastre. Eles pareciam estar ali de má vontade. Não tocaram sequer “Let’s Go Surfing”, terminaram a apresentação mais cedo e acho que só não foram vaiados porque não deu tempo.
Sentados aos pés da estátua do Lincoln e esperando o início do próximo show, observávamos a limpeza do parque. Embora a boa educação dos americanos mereça algum crédito, havia uma iniciativa brilhante do Lolla que ajudava a deixar o Grant Park ainda mais limpo. A organização do festival distribuía sacos de lixo para quem quisesse coletar latinhas de alumínio. Depois, os catadores voluntários podiam trocar um saco cheio por uma camiseta oficial do Lollapalooza – feita de bambu, só para ficar ainda mais ecológico. Não sei se algum festival brasileiro já copiou esta idéia, mas fica aí a sugestão: funcionou que foi uma beleza.


Ellie Goulding: uma gracinha, mas não cativou

Assistimos à Ellie Goulding, que foi simpática e tinha bastante público, mas não me cativou muito. Poucas músicas depois, fomos em direção ao Music Unlimited para assistir ao Cee-Lo Green. Chegamos com o show já começado e, com o passar das músicas, percebemos que, mais uma vez, tínhamos feito a escolha errada. Cee-Lo, ainda mais do que o The Drums, parecia estar bastante insatisfeito. Nem a sua banda exclusivamente feminina ajudava a dar uma pitada de interesse à performance. Cee-Lo quase não cantava, e abusava de samplers aleatórios entre as músicas. Achei que, ao menos quando tocasse o mega-hit “Fuck You”, a coisa fosse engrenar. Mas não: Cee-Lo mal abriu a boca e deixou que a parte do público que ainda estava prestando atenção levasse a música praticamente sozinho. E, sem aviso e antes do tempo previsto, foi-se embora.


My Morning Jacket: quem não foi, perdeu

Embora o My Morning Jacket tivesse status de headliner, com direito a show de 2 horas e tudo, a impressão que eu tinha era de que o público em massa estava ou no show do Eminem ou nos headliners secundários Beirut e Pretty Lights, da tão vazia que estava a plateia. Bem, azar de quem não foi, porque eles fizeram um showzaço. As músicas do novo disco, “Circuital” ficaram excelentes no palco e não fizeram feio junto de clássicos como “Wordless Chorus”, por exemplo. Jim James balançou muito a cabeleira e empolgou os fãs, deixando o filé mignon para o final: uma versão épica de “One Big Holiday”, para lavar a alma. No fim das contas, nem o metrô lotado na volta incomodou.

7 DE AGOSTO DE 2011 – SHE’S THUNDERSTORMS
Para variar, chegamos atrasados ao Grant Park, mas a tempo de pegar a metade final do show do The Joy Formidable – que venceu a disputa com Titus Andronicus na minha tabelinha. Mesmo vendo apenas um pedaço, foi um dos melhores shows que pegamos. Eles fazem um som pesado – com direito a um gongo! – e ideal para arena, como poucas bandas hoje em dia.

Apesar de ter chovido de manhã, quando chegamos ao Lolla fazia mais calor do que nos outros dois dias juntos. O sol escaldante contrastava com as poças de lama deixadas pela chuva que caíra mais cedo. Por sorte, não só era permitido entrar no festival com uma garrafa d’água de até 1 litro – desde que fosse “factory sealed” –, como era possível reabastecê-las à vontade, graças aos quiosques gratuitos de distribuição de água. Taí mais uma idéia que os festivais de certo país tropical podiam adotar.


Little Hurricane, uma boa surpresa

Enquanto tentávamos driblar o calor bebendo água, nos dirigimos para mais um show no nosso queridinho palco Google +, do mega-desconhecido Little Hurricane. Para a minha surpresa, até que havia um público considerável. A banda foi escalada de última hora, depois da desistência de outra, e foi só por isso que fiquei sabendo da sua existência. Achei o som bacana – a comparação mais óbvia é com White Stripes, pela formação idêntica, mas eles são mais blueseiros e têm um som mais limpo. O show foi curto, mas bem legal. Dava para perceber a felicidade da baterista CC e do guitarrista/vocalista Tone por estarem tocando no Lollapalooza. A propósito, recomendo bastante o único disco deles “Homewrecker”.


The Pains of Being Pure at Heart: tão puros que se perderam

Depois de muito sol na moleira, não resistimos e fomos nos despedir do nosso querido cooling bus antes de seguirmos para a nossa próxima parada, o show do The Pains of Being Pure at Heart. A apresentação foi um tanto confusa, apesar das músicas grudentas, a maioria tirada do ótimo “Belong”. Não sei se por nervosismo ou inexperiência, mas os meninos pareciam meio perdidos no palco, meio que sem saber o que fazer com aquelas guitarras. No mês seguinte, assistimos a banda novamente no Rio e eles se redimiram dessa primeira impressão pouco favorável.


Perry Farrel, a tiazona da criançada

Assim que terminamos de ver o Pains, corremos para o Kidzapalooza. Mas não porque ficamos com saudades de ver criancinhas correndo, mas porque o o fundador do festival, Perry Farrell ia fazer uma mini-apresentação ali. Já que estávamos no Lolla, tínhamos que dar um jeito de prestigiá-lo. Dito e feito, com algum atraso Farrell subiu ao palco para cantar apenas 2 canções – entre elas “Kimberly Austin” – auxiliado por uma trupe de roadies mirins. Apesar de curto, valeu a espera.

Com o atraso do Farrell, acabamos perdendo o início da apresentação do The Cars, os veteranos da vez. Ric Ocasek até que se esforçou, mas a apresentação foi apenas mediana. Para falar a verdade, estava pensando mais no que iria comer depois do que prestando efetivamente atenção no show. E a lembrança deste momento é pior ainda quando eu penso que deveria ter almoçado durante o The Cars e reservado o horário posterior para assistir a outra banda: Portugal. The Man.

Eis aí o meu maior arrependimento de Lolla, que na verdade é algo que está fadado a acontecer em qualquer festival grande. Meses depois, você conhece uma nova banda, vira fã e… descobre que ela tocou no festival. E você, obviamente, não viu! Foi isso que aconteceu com Portugal. The Man. Na época eu os conhecia superficialmente e só fui me tornar fã depois. E o que eu estava fazendo no momento em que eles se apresentavam? Comendo algum sanduíche. Lamentável.

Mas mais lamentável ainda é o fato de que, após a apresentação do The Cars e do almoço que se seguiu, fomos surpreendidos por um dilúvio bíblico. Todo aquele calorão servira apenas para preparar um temporal épico, que foi se formando quase que sem percebêssemos. Não havia uma parte sequer do meu corpo que não estivesse encharcada. Só não perdi minha câmera porque tive a presença de espírito de embrulhá-la num saco plástico.


Arctic Monkeys: Chicago’s Thunderstorms

Enquanto éramos castigados pela água, fomos correndo em direção ao show do Arctic Monkeys, na ilusão de que já teria começado. Porém, a chuva era tanta que a apresentação atrasou. Para piorar ainda mais, após a chuva parar começou a soprar um vento gelado. O que mais se via ao redor eram pessoas pulando para se aquecer, fora os malucos de sempre deslizando na lama. Eventualmente, surgiu um arco-íris no céu e o Arctic Monkeys enfim subiu ao palco.

Com o recém-lançado “Suck It and See” na boca da galera, Alex Turner e companhia não economizaram nas canções do disco: teve “Library Pictures” (que abriu o set), “Don’t Sit Down Cause I’ve Moved Your Chair”, “The Hellcat Spangled Shalalala” e “She’s Thunderstorms”, esta última com direito até a piadinha sobre a chuvarada que tinha acabado de cair. Ainda tocaram algumas do primeiro e segundo álbuns, como as favoritas “I Bet You Look Good on the Dancefloor” e “Fluorescent Adolescent”, e pouquíssima coisa do subestimado “Humbug”. Teria sido praticamente perfeito se tivessem tocado também “Brick by Brick” e “Cornerstone”. Ah, e se não estivéssemos encharcados. Por muito pouco não tiraram o Fitz and the Tantrums do primeiro lugar do nosso pódio.

Após o momento aquático, resolvemos que era hora de dar um tempo para nos secarmos. Fomos nos dirigindo ao palco em que o Cold War Kids iria tocar dali a uma hora e meia. Sim, fizemos uma escolha ousada: decidimos não ir ao Foo Fighters (que, ao que parece, acabou sendo épico) para ver os bem menos cotados sub-headliners. Por incrível que pareça, não entra na categoria de arrependimentos.

Era o último dia de festival e algo que estava nos martelando a cabeça desde o começo do Lolla nos levou à barraquinha do shot de grama líquida. A bebida bizarra era vendida como “a mais saudável do mundo”, ou coisa que o valha. A curiosidade falou mais alto e, como custava apenas 2 dólares, resolvi experimentar. No momento em que levei o copinho à boca, fomos surpreendidos por um temporal ainda mais forte do que o anterior, que durou cerca de 5 minutos, mas que foi suficiente para nos deixar ainda mais molhados do que na primeira chuva, se é que aquilo era possível. E, como já era noite, não havia nenhuma possibilidade de nos secarmos tão cedo. A conclusão? Nunca beba grama líquida.


Cold War Kids com o melhor refrão para o fim do festival: Hang me Up to Dry

E foi assim, molhados e tremendo de frio, com os pés totalmente enlameados, que vimos o Cold War Kids dar o sangue numa apresentação excepcional. Embora as músicas do disco mais recente não cheguem aos pés das do primeiro álbum, ao vivo elas ganharam força. E quando eles tocaram “Hang Me Up to Dry”, ficou claro que nenhuma música poderia ser mais apropriada para encerrar o festival.

Reply

AlesseBuy AlesseVibramycinBuy VibramycinPamelorBuy Pamelor