Existe a música, é claro. Feita de detalhes mínimos que vão se incorporando um ao um, como um muro sonoro que vai sendo levantado com paciência e precisão. Não há pressa na música do Massive Attack: é tudo orgânico e fluido, incorporando notas e sensações com uma rara mistura de delicadeza com firmeza. A música dos ingleses de Bristol nunca descamba pra viagem dispersa e flácida; é uma experiência densa e viril, que te arranca do chão com mãos firmes e te carrega por um mundo obscuro, tenso, cheio de melancolia e estranheza.
E há, também, a experiência visual. Obviamente, não há novidade nenhuma em usar recursos visuais para enriquecer o espetáculo. A forma como o Massive Attack faz uso desse recurso é que faz a diferença. Há é claro o uso puramente sinestésico, com cores, formas e linhas que se sucedem no ritmo preciso da música. Mas há também os textos, os dados estatísticos, as frases de efeito (tudo devidamente traduzido para o português), que produzem um estranho contraste com as canções; se por um lado a música nos conduz pelo intuitivo, as projeções nos levam a tentar criar uma ponte, subjetiva é claro, entre aquele pensamento e o som. No começo, cheguei a pensar que esse conflito seria prejudicial, e que no fim a interferência da razão nos afastaria da emoção. Eu estava errado.
O que ocorre é que se estabelece um real diálogo entre o que se lê e o que se ouve, ou se preferir, entre o que se pensa e o que se sente. Não é um diálogo literal ou ilustrativo – os textos amplificam a percepção da música, e vice-versa, criando um novo contexto para ambos. E então você se percebe arremessado em um estranho mundo onde pensamento e sentimento são uma coisa só, atemporal e orgânico.
Essa viagem sensorial é conduzida com delicadeza por 3D e Daddy G e seus convidados. Martina Topley Bird é encantadora nos vocais e também na expressão corporal, com gestos que lembram uma dançarina de caixinha de música. Sua interpretação de “Teardrop” é doce e tocante, com uma respiração marcada que acrescenta dramaticidade e poesia à música.
Os outros vocalistas, Horace Andy e Deborah Miller, com estilos bastante distintos, também contribuem decisivamente para o espetáculo. Mais Andy, cuja imagem e timbre em si já acrescentam corpo e complexidade às músicas. Sua versão de “Angel” é ainda mais dolorida e pungente que a original.
No mais, há todo o talento da dupla na direção musical: com duas baterias, um sinte
tizador, baixo, guitarra e vocais, o Massive Attack preencheu cada espaço do HSBC com seu som pesado, encorpado. Mérito também do excelente som da casa, que permitia ouvir até as nuances do baixo mesmo com o peso das duas baterias.
Depois de quase duas horas de show, com direito a dois bis (o primeiro encerrado com a excelente “Atlas Air”, um dos momentos altos da noite), ao final do show era visível a satisfação de todos os presentes – mesmo as mais altas expectativas pareciam ter sido superadas por uma experiência intensa e emocional. Sério candidato a show do ano.
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