Ready to be heartbroken?

Publicado em 27 de May de 2010

O Camera Obscura é o anti-emo. Porque apesar das canções sobre desilusões amorosas, frustações e outras decepções, nunca há sofrimento. O Camera Obscura parece acreditar intensamente que o amor é necessário e, se é preciso aceitar que ele acaba, que seja visto com alegre nostalgia e um toque harmonioso de renovação.

Obviamente, isso já está no ideário da banda e povoa todo seu trabalho. Mas ao vivo, essa mistura aparentemente incongruente de decepção, melancolia, ingênuo otimismo e desvelada paixão ganha ainda mais força, conquistando o público com um show simples na forma mas intenso no conteúdo. Intenso nos detalhes (a tecladista Carey Lander é um especial destaque nesse sentido, com sua sutil teatralidade na interpretacão das músicas), o show tem pouca mise-en-scene e quase nenhum virtuosismo, mas conquista pela força da harmonia e o conjunto das músicas, que acabam por criar um delicioso clima de cumplicidade com a platéia.

Assisti ao show da banda no T in the Park ano passado, na Escócia, sua terra natal. Show excelente – mas o de ontem foi melhor. Melhor no som e melhor no público, caloroso e interativo, surpreendendo a banda com um coro já no começo (não me lembro se foi em “Tears for affairs” ou “The sweetest thing”). Público conquistado, a vocalista Tracyanne Campbell pôde relaxar – parecia um pouco tensa no começo – e conduziu o show com graça e simpatia, passando pelos hits (“French Navy”, “If looks could kill” e, claro, a catártica “Lloyd, I´m ready to be heartbroken”, que virou uma espécie de hino da noite, cantada a plenos pulmões pela galera).

Apesar da tristeza dos que ficaram sem ingresso, é preciso admitir que o Studio SP tem o tamanho ideal para o show do Camera Obscura (apesar de Tracyanne pedir, “espero que nos apresentemos em um local maior na próxima vez”), contribuindo no clima de cumplicidade entre a banda e o público. Surpreendentemente (pra mim) foi ver que na platéia havia mais meninos que meninas (bom, geneticamente falando) – um público jovem e interessado, que parecia conhecer bem a banda, ou pelo menos seus trabalhos mais recentes.

Apesar da óbvia identidade com a também escocesa Belle and Sebastian, o Camera Obscura foge da melancolia que muitas vezes permeia o som da banda de Stuart Murdoch. Ao vivo, seu som ganha ainda mais corpo e energia, falando de amor com aparente ingenuidade mas na real com alegre cinismo sobre o mundo moderno que vivemos e suas intrincadas relações. E quando você se vê jogado após o show, 3 da manhã em plena Rua Augusta, em meio a casais indies apaixonados, prostitutas, traficantes e toda sorte de ser humano errante, você realmente só consegue pensar que em um mundo como esse você deve estar pronto pra ter o coração partido – mas sem dor e sem nunca perder a fome de viver.

Foto de Camilla Costa – http://www.flickr.com/people/flique/

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  1. T in the Park: Primeiro dia

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