Imagine que Elvis não morreu (ok, muita gente tem certeza disso). Agora imagine (talvez essa parte seja um pouco mais difícil, mas faça o exercício) que ele nem sequer envelheceu todos esses anos. Quer dizer, ele permanece aquele mesmo sujeito boa-pinta e inquieto que um dia revolucionou toda a história do rock’n roll. Agora imagine que Mr. Presley passou esses anos todos no anonimato, acompanhando o que deu desse tal de rock. E acompanhou com certo entusiasmo o surgimento do hard rock, do metal. Vibrou com o rockabilly, se entusiasmou com o punk, comprou até uns discos de psycobilly. Viu Kurt Cobain dizer “Here we are now, entertain us”. Virou uma espécie de fã do Sonic Youth, mas acha os últimos discos experimentais demais. Pois bem, imagine então que depois disso tudo o senhor Elvis Presley resolve voltar à ativa: juntando alguns amigos excelentes músicos, é bem possível que o som que ele viesse a fazer soasse muito parecido com Mr. Jon Spencer e seu Heavy Trash.
O que isso quer dizer? Jon Spencer presta tributo a todo momento ao rock clássico da década de 50: bluesado, swingado, cru sem ser tosco. E também à figura de seus mestres, no figurino, nos gestos, na encenação, na devoção: “Are you ready? Say Yeah! Are you ready? Say yeah!” Até no suor em bicas ele lembra os mestres, principalmente o Rei em seus momentos mais entregues. E essa viagem ao passado se torna ainda mais deliciosa porque acontece em um dos templos teenager-indie de São Paulo, o Studio SP. E de repente é possível ver garotas swingando com os cotovelos colados no corpo, garotos “mod” estalando os dedos no ritmo da música – movimentos de dança que muitos deles têm idade pra ter visto apenas nos filmes – ou no You Tube.
Mas o Heavy Trash quase nada tem de nostálgico: o rock vintage que eles praticam é totalmente iluminado pela história da música recente, passando pelo óbvio rockabilly, mas também pelo punk, pelo noise rock e até pelo indie-rock de um Strokes. É rock antigo feito com olhares de hoje, vibrante e moderno, rápido e barulhento, mas com elaboração e refinamento.
A performance do grupo é avassaladora e cativante: Quando começou, era possível ver muita gente conversando, quase desinteressada. Mas no final a platéia era uma coisa só, enlouquecida, entregue ao puro rock de Heavy Trash.
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