O grande circo físico do Kiss

Publicado em 8 de April de 2009

Tudo no Kiss parece intensivamente estudado. Gestos, declarações, movimentos: tudo pensado para agradar a sedenta platéia de rock’n roll. E como sabemos, o verdadeiro rock’n roll é tudo, menos planejado. Mas mesmo assim, a mistura kitsch da banda, embalada pela energia quase inesgotável de seus integrantes, riffs potentes e pegajosos e uma criatividade inesgotável, fizeram o show de ontem em São Paulo um evento inesquecível.

Fica quase impossível acreditar nas declarações de amor da banda por São Paulo, já que se sabe que esse discurso é repetido em todo show. Mas mesmo assim acreditamos sem acreditar, em um voto cínico de confiança, isso sim muito rock’n roll.

Os críticos sempre atacam o Kiss pela cafonice, pelo exagero. De fato, uma banda de caras pintados parece no mínimo anacrônica em 2009. Mas o legal do Kiss é que a coisa toda não fica por aí: tem também fogo, fogos de artifício, cabos de aço fazendo o baixista “voar”, papel picado… E é justamente esse exagero, essa aposta em coisas que nenhum outro artista “sério” arriscaria, é que reside o brilho do Kiss. Tudo é exacerbado, explícito: não há sutilezas (muito diferente, oposto mesmo, do Radiohead, por exemplo). 

Toda a performance do Kiss é muito física, feita de ações, explosões, caretas e gestos (muitas vezes parecem clowns de teatro, com posições e expressões estudadas, ensaiadas). Mas eles parecem acreditar tanto nessa mentira, que acabam nos convencedo. Não há espaço para pensar: You gotta lose your mind in Detroit rock city. Troque “Detroit” pelo nome da sua cidade, e você tem aí o credo do Kiss.

E há, é claro, a música. Os detratores podem dizer que são simplistas, exageradas, até repetitivas. Mas a quantidade de riffs e refrões memoráveis que o Kiss vai deixar na história do rock’n roll é inegável. Um dia, provavelmente, você vai ouvir o seu neto assobiando “Rock’n roll all nite” – gostando ou não. E talvez, nessa hora, você possa dizer que esteve no show deles em 2009. Que eles se vestiam de modo esquisito e tal – mas fazem um puta show do caralho.

Há uma mística curiosa no Kiss, já que toda a imagem das “máscaras”, Genne Simmons cuspindo sangue e todo o resto podem parecer coisa “do mal”. Mas no show você podia ver tranquilamente gente mais velha, famílias. O Kiss no fundo vende uma imagem teatral tão forte, que ninguém na verdade se importa se quilo é “real” ou não. É tudo um grande circo. O grande circo do rock’n roll.

Na saída do show, pude ouvir uma garota de seus 19 anos afirmando enfática: “Foi o melhor show de rock da minha vida”. Obviamente um exagero, talvez causado pela pouca idade da moça, mas uma coisa é certa: quem um dia já falou essa frase sabe o que ela significa, e uma banda capaz de causar esse tipo de sentimento em uma adolescente, mesmo depois de 35 anos de estrada, certamente merece mais do que respeito.

O set-list do show foi o seguinte, o mesmo dos outros shows na América Latina (to tirando o “Stairway to heaven”, porque aquilo foi de sacanagem – até a cafonice tem limite):

Deuce
Strutter
Got To Choose
Hotter Than Hell
Nothin’ To Lose
C’mon and Love Me
Parasite
She
Watchin’ You
100,000 Years
Cold Gin
Let Me Go, Rock’n'Roll
Black Diamond
Rock And Roll All Nite

Bis

Shout It Out Loud
Lick It Up
I Love It Loud
I Was Made for Lovin´ You
Love Gun
Detroit Rock City

Os vídeos prometidos vêm mais tarde.

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